Estresse: Homens da segurança pública estão no limite

A segurança pública no limite

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Quando o policial tira a farda num ato de raiva ou o bombeiro mostra uma motosserra numa briga banal é sinal que algo pode estar errado. E não são casos isolados. Há relatos graves de problemas de saúde na segurança pública, indicando que é preciso reforçar a área e impedir que o pior aconteça para os próprios policiais e à sociedade.
A constatação do DC saiu após entrevistas com policiais, psicólogos e episódios recentes. De farda ou não, quem trabalha contra o crime afirma que a situação assemelha-se a uma bomba-relógio. Para eles, a condição salarial, a falta de efetivo, as crises internas e o não acompanhamento fixo da saúde dos profissionais agravam o estresse que a própria atividade gera.
Descontrolado, soldado tirou a farda ao atender uma ocorrência envolvendo adolescentes.
Histórias de servidores da segurança com sintomas de doenças causadas pelo estresse e de situações contra a ordem são comuns no Estado. Um soldado ouvido pelo DC e que pediu para não ser identificado para evitar punição interna contou que chegou a tentar o suicídio há dois anos.
— Ninguém entra na profissão doente. É coisa que adquiri vivenciando mortes, vendo corpo decepado, tendo de tirar vida na rua. Quando cheguei ao ponto crítico tentei o suicídio. Antes levaria três superiores junto. Mas minha mulher me salvou — emociona-se o soldado que ficou quatro meses fora das ruas, mas decidiu retornar mesmo sem terminar o tratamento para não perder parte do salário.
Outro soldado ouvido pela reportagem está há dois meses em tratamento psiquiátrico e continua trabalhando. Tem insônia, brigou duas vezes no trânsito quando estava de folga e discutia fácil em casa com a família. Agora, sob acompanhamento médico, consegue dormir depois de tomar medicação controlada (tarja preta). Para o PM, que também teme represália e não quer ter o nome evelado, 40% do estresse são por causa da questão financeira.
— Senti que não tava legal quando discuti com um superior. Ele me mandou notificar um veículo rebaixado que estava parado. Notifiquei mas não assinei a multa. Ele mandou eu me apresentar no outro dia que era a minha folga — recordou, apontando o estresse com os superiores como outro motivo que afeta a saúde dos praças.
Os dois afirmam que sabem de colegas que passam por situações semelhantes. Um dos casos ecentes, em Florianópolis, é o de um PM que participou da operação no Morro do Horácio na noite de 11 de fevereiro deste ano. Na ação, o jovem Guilherme dos Santos da Silva, 23 anos, foi morto a tiros pelos policiais. Depois do fato, o soldado passou a ter alucinações de que estaria sendo seguido. Numa crise, saiu em alta velocidade e se acidentou de moto. Ele está internado com lesões nos braços.
Afastamentos na PM e na Polícia Civil
Na Polícia Militar, 432 PMs são afastados por problemas de saúde por ano. Isso representa 4% da tropa. O índice é preocupante, mas ainda considerado baixo, avalia o diretor de saúde e promoção social da PM, coronel Cantalicio de Oliveira.
A PM tem hospital próprio, na Capital, mas ele não é credenciado para atender casos psiquiátricos como o do soldado de Joinville. Cantalicio justifica que a unidade é de pequeno porte. PMS que se acidentam em serviço contam com assistência completa. Fora do trabalho, há desconto apenas para os que contam com o plano estadual de saúde, o qual é opcional.
Na Polícia Civil, dos 3.274 policiais civis na ativa, 33 estão afastados por problemas de saúde. São 28 agentes, quatro escrivães e um delegado. Uma situação considerada preocupante é o fato de a Civil ainda não contar com psicólogos em sua estrutura no interior.
A psicóloga Clarice da Silva informou que há expectativa de ingresso de 60 novos psicólogos aprovados em concurso até o segundo semestre deste ano. Ela ressalta a criação em junho do ano passado da coordenadoria de saúde ocupacional que tem acompanhado os casos de doenças de trabalho e mortes de policiais. 
Os problemas de saúde na segurança pública também atingem servidores do sistema prisional e de adolescentes infratores. Nesses ambientes há tensão da superlotação, tentativas de fuga a todo instante e até de denúncias de violência.
— Percebi que algo estava errado comigo quando agredi um interno. Perdi o controle, a noção do perigo, a família ficou desestruturada — desabafa o agente socioeducativo que ficou nove meses afastados por transtorno bipolar.
Na rotina com os internos, ele conta que sofria ameaças de morte, que o ambiente de trabalho era insalubre e sofria abalo psicológico ao ver internos dormindo em espaços em que as fezes transbordavam do vaso sanitário.
Tenho vários colegas com problemas de saúde, bipolaridade e até alcoolismo. Não há ajuda psicológica — reclama o agente, que continua fora do serviço.
— Há casos de depressão e de quem depende do álcool. Muitos não tiram licenças prolongadas porque perderiam horas extras e adicional noturno, e teriam prejuízo salarial.

O abalo em crimes sexuais.
Na atividade policial, a necessidade de apoio psicológico tem sido essencial para quem trabalha com crimes sexuais.



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